A propósito dos 100 anos da Revista Orpheu

- Futurismos e derivas<br>da literatura portuguesa<br> nos primórdios do século XX

Domingos Lobo

A intelectualidade bem pensante, acantonada ao protectorado da social-democracia indígena, com o aval de Eduardo Lourenço, arvorado guru dessa rapaziada ululante e fulgente que se exibe nos salões da Gulbenkian, do Centro Cultural de Belém, nos écrans da TV, ou no fino recolhimento da Casa Fernando Pessoa e anda por aí em desvario exultante e contentinha a propósito dos 100 anos da revista Orpheu e do propalado Modernismo Português. Se os tempos que vivemos fossem propensos a reflexão séria sobre estes fenómenos da modernidade pouca e substantiva matéria teriam para tão infrene júbilo.

O sensacionismo/futurismo aparece em Portugal por volta de 1914, quando o país atravessava um período de desordem, de anarquia política e ideológica, com os próceres da jovem República a não se entenderem quanto aos caminhos do futuro, a embarcarem na aventura suicida da 1.ª. Guerra, tendo às canelas os dentes podres de uma monarquia serôdia e derrotada num estertor de escaramuças e contra-revoluções de ópera bufa. É deste caos, conceptual e orgânico, que a voz de Fernando Pessoa emerge, numa série de ensaios sobre a condição literária nos quais procurava definir o sensacionismo e o futurismo, e outros desmandos de importação reaccionária (o sensacionismo ou interseccionismo não foi mais do que a apropriação nacionalista do futurismo anunciado por Marinetti), aventando a ideia peregrina de um supra-Camões, difusa congeminação simbólica, génio que surgiria, qual salvador, segundo o visionarismo pessoano, das cinzas de um país a derruir, ou de mostrengas sombras (ou de sebastiânicos nevoeiros) sempre que a Pátria se «encontra à deriva e deprimida». Era, portanto, o sonso e tímido Pessoa a pôr-se a jeito na sucessão ao pedestal do vate luso: atentem concidadãos, meus contemporâneos, e vindouros, o supra-Camões c’est moi.

Anarquia política gera, necessariamente, anarquia literária. É neste desvario, neste chão poroso da 1.ª. República, que a geração da revista Orpheu encontra espaço e interlocutores, por cá e no Brasil, para a presuntiva missão cuja consistia em épater les bourgeois que se passeavam entre o Rossio e o Chiado. Parca receita para tão badalado cometimento. A investida durou apenas 2 números e depauperou, ao que consta, as economias de Mário Sá-Carneiro, ao qual o desencantado lastro levaria, em 1916, ao suicídio.

Não duvidamos da necessidade de um movimento literário que espelhasse os novos tempos, criador de rupturas com uma literatura vinda da tradição realista do século XIX, ou espelhando ainda restos do romantismo, pouco concernente com os primórdios da revolução industrial – consubstanciada nos escritos de Júlio Dantas, tendo este servido de bombo de feira para as arruaças polémico-revisteiras de Almada Negreiros no seu célebre Manifesto Anti-Dantas. Uma poesia que reflectisse a civilização industrial que se começava a esboçar, da nova era da máquina que na Europa e nos Estados Unidos ia criando estruturas de movimento criador autónomo, a par com o dadaísmo. Álvaro de Campos, um dos heterónimos pessoanos, exprimiria, com a genialidade conhecida, essa nova vertente poética.

Em França e na Itália, Marinetti divulgara a partir de 1909 as bases estruturantes do futurismo: guerra às tradições, à cultura feita, ao academismo, exaltação dos instintos de luta, apologia de um novo homem protótipo, isento de sensibilidade, saudável, amoral, dominador, livre e liberto (sublinhados meus). As teorias fascistas de Gabrielle D’Annúnzio, e dos seus comparsas políticos, que nessa fonte beberam o essencial do seu projecto, não andavam muito afastadas destes pressupostos futuristas.

Apollinaire, Blaise Cendrars, Valéry Larbaud eram, em França, os arautos da nova vida mecânica. Mas o grande precursor de uns e de outros, reconhecido até por Marinetti, foi o poeta americano Walt Whitman. Whitman terá grande influência no discurso poético de Álvaro de Campos. Campos será, neste burgo à deriva, o poeta «da vertigem, das sensações modernas, da volúpia da imaginação, da energia explosiva», segundo definição do próprio Fernando Pessoa em carta a Adolfo Casais Monteiro.

1915, data em que Álvaro de Campos escreve a sua Saudação a Whitman, marca a ratificação definitiva do sensacionismo e, de certa forma, o afastamento de Pessoa do movimento, indo juntar-se, ainda que episodicamente, aos mentores da Renascença Portuguesa, cujos pretendiam espiritualizar a jovem República, ou, nas palavras de Jaime Cortesão, dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana, na senda dos predecessores do movimento, Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno. O jovem e irrequieto Pessoa afasta-se da Renascença Portuguesa, proferindo, na oportunidade, uma das suas enigmáticas arengas político/filosóficas: a preocupação da ordem, num partido político, eleva ao rubro as suas paixões; e que, portanto, num país onde todos os partidos tenham a constante preocupação da ordem, se estará em constante desordem e anarquia.1 Não se entende, portanto, que Pessoa, denunciador do preconceito da ordem, venha a escrever um poema de exaltação ao Presidente-Rei Sidónio, vendo nessa sinistra figura a ordem e disciplina que o seu consulado advogava. Contradições de um ser inquieto.

Não creio que o pensamento político em Fernando Pessoa tenha sido relevante, mas nunca deixou de o expressar, embora confusamente e de acordo com os humores do dia, tecendo elogios fervorosos a Sidónio e a Salazar e, passadas as euforias iniciais, o seu contrário. O livro Mensagem, em que tentou, sem o conseguir, ser o supra-Camões que almejava, mesmo relevando o brilhantismo formal de alguns poemas, não passa de um livro de exaltação patriótica onde perpassa o primarismo do ideal da raça, o lugar-comum conservador e redundante da pretensa heroicidade dos nossos antepassados. Mensagem nem aos teóricos do fascismo sensibilizou, preterido pelo bucolismo reaccionário de Romaria, do padre Vasco Reis. Nesse território, até Guerra Junqueiro, no seu drama histórico Pátria foi, na abordagem da mitologia nacionalista, mais lúcido e transgressor. A propósito, escreve o poeta António Cândido Franco: Pátria, poema dramático de Guerra Junqueiro, publicado em 1896, é, porventura, uma das cumeadas da moderna poesia portuguesa. Fernando Pessoa – que, inspirando-se nele para escrever Mensagem, o não parece, todavia, ter ultrapassado, já que o seu poema se afigura de compleição mais débil e de muito menos audácia no entendimento do país onde nascemos.

Este entendimento do país onde nascemos, da sua realidade social e política, surgiria poucos anos volvidos com Terras do Demo (1917), de Aquilino Ribeiro, Lírios do Monte (1917), de José Gomes Ferreira, Pescadores, e O Gebo e a Sombra, de Raul Brandão (1926), Emigrantes (1928), de Ferreira de Castro e Ansiedade, de Miguel Torga. Fernando Pessoa, em 1928, dava a conhecer o seu texto O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar, opúsculo louvaminheiro dos valores da ditadura de Carmona, e Almada Negreiros, em 1929, ilustrava os primeiros cartazes do fascismo luso tendo por mote o slogan salazarento Tudo Pela Nação, Nada Contra a Nação. Feitios muito modernistas, portanto.

1 in Elogio da Indisciplina e Poemas Insubmissos




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